Dramaturgo, poeta e Don Juan brasileiro, Manuel
Antônio Alvares de Azevedo foi um dos maiores escritores do ultra-romantismo.
Em seus trabalhos encontra-se material nocivo para a saúde mental de qualquer
desavisado, mas nem por isso vou deixar de recomendar esse escritor, do qual
suguei os mais fortes escritos já lidos em minha adolescência.
Grande
admirador da pureza feminina, da qual procurava nos ambientes mais improváveis,
mas como dizia em uma de suas obras:
“A virgindade da alma pode existir
numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. Há flores sem perfume, e
perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia
pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.”
(Alvares de Azevedo - Macário)
Essa busca
por tal virgem pura de corpo e alma, rendeu contos e poemas intensos, que
fazem-nos refletir sobre o apreço que temos pelas pessoas e inclusive pela
própria vida, um em especial mexeu comigo de forma que nenhum verso havia feito
antes:
Lembrança de Morrer
Quando em meu peito
rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na
matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como
deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de
minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade...
é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus
únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as
pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade
sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade
santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito
solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale,
noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
Tantas obras de tirar o fôlego em uma vida tão curta. Aos 21 anos
incompletos, ele faleceu, deixando a ideia de que já esperava o beijo da morte,
como é citado em sua antologia “Lira dos Vinte Anos”:
“Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos! ... não vivi um só momento!”
(Alvares de Azevedo – Saudades)
Eis o gênio que me apresentou ao mundo de Byron, Goethe e tantos outros
escritores fantásticos que tive o prazer de ler!







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