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Orfeu da Conceição, o som da lira e da amizade

“Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país, melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca.”   
 (Vinicius de Moraes)

            Do grande mito grego, surgiu a idéia de uma peça, mas na mente de um gênio não surgiria uma simples releitura de um conto, mas a base para uma obra estupenda, onde a realidade de seu povo foi mostrada para o mundo. Orfeu da conceição, peça teatral premiada, foi o grande elo de uma amizade, da qual nasceram frutos dignos aos deuses do olimpo.

             “Foi por volta de 1942 que eu, uma noite, depois de reler o mito numa velha mitologia grega, senti subitamente nele a estrutura de uma tragédia negra carioca. A lenda do artista que conseguiu, graças ao fascínio de sua música, descer aos infernos para buscar Eurídice, sua bem-amada morta e que, ao perdê-la em definitivo e com ela o gosto de criar e de viver, desencadeou em torno de si a desarmonia, o desespero de que seria ele a primeira vítima, - essa lenda poderia perfeitamente passar-se num ambiente como o de uma favela carioca, sublimados, é claro, os seus elementos naturais de modo a atingir a elevação do mito.”
(Fragmento, texto de Vinicius de Moraes)


Peça pronta, só faltava as mãos de um músico para complentá-la. Então foi no restaurante carioca Vilarino, que Vinicius, poeta já renomado, foi apresentado à um músico ainda oculto na noite, Tom Jobim. Por viver apertado, com os trocados que conseguia na noite, o interesse financeiro de Tom era grande, mesmo deixando isso explícito ao Vinicius, os dois começaram à trabalhar na música.

            "No início, havia uma certa timidez. As primeiras músicas ficaram umas porcarias. Fizemos três sambas horríveis, num desajuste total. Mas Vinícius, pacientemente, queria que fossemos trabalhando até sair uma coisa direita”.
(Songbook de Tom Jobim)

             De fato, depois de tanto trabalho, surgiu uma maçã de ouro, uma música que tornou-se eterna, “Se todos fossem iguais a você”:



            Eis o ponto de partida dessa união, que está guardada pelas espérides, em meio a  todas as maçãs douradas que Tom e Vinicius compartilharam com a humanidade.

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Soneto do Amor Total



Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Saindo um pouco das Claves e mergulhando nos Livros, vamos falar um pouco hoje sobre o lado LITERÁRIO de Vinícius de Moraes, que não recebeu por acaso de Tom Jobim o apelido de POETINHA.
Além de compor canções que ainda fazem grandes sucessos no Brasil e no mundo, Vinícius foi autor de magníficas poesias, prosas e sonetos que marcaram a literatura brasileira. Eles inspiraram canções, muitos corações apaixonados, e deram asas à imaginação de frágeis sonhadoras que esperavam o amor do homem perfeito.

“Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.”
(Prosa Para viver um grande amor)
Mas o poetinha não usou seu dom apenas para descrever o amor em seu estado enamorado, ele ousou criar com palavras, um modelo de perfeição feminina que para ele era indispensável.
Em Receita de Mulher, Vinicius esculpe com poesia a mulher perfeita, e cá entre nós, o quase impossível em uma só mulher....



E não para por aí. Ele fez jus de sua fama de “mulherengo” exaltando a mulher como símbolo de adoração em outras de suas composições como: Poema do Olhos da Amada, Soneto da Mulher ao Sol,  A Mulher que passa, e outros .
E pra fechar com chave de ouro, um pouquinho de Vinicius de Moraes nas vozes de Caetano e Maria Betânia...






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Corcovado, Um Gigante de Belezas Mil

Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo
Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade meu amor
O que é felicidade, o que é felicidade
(Corcovado - Tom Jobim)

      Corcovado, um gigante de gnaisses, aos olhos de um geólogo. Aos olhos de um poeta, é um gigante de belezas mil, um mar de inspirações, mar este que o Sir Antônio Carlos velejou por toda sua extensão. Hoje não irei falar do grande pedestal de Cristo, mas da canção, tão tenra, que tomou parte do repertório de saudosos intérpretes, como Frank Sinatra e Miles Davis..
      Nos meados dos anos 60, o mundo recebeu um presente tão belo quanto o monumento que o nomeava, Tom Jobim lançara a canção "Corcovado". No começo desta década, Tom admirava a vista  que tinha de seu apartamento, desta vista surgiu inspiração para uma obra prima, que até hoje é vista como um grande patrimônio, não só carioca, mas também de todos nós brasileiros, assim como o Cristo Redentor.
     Eis uma canção para se saborear bons momentos, seja numa roda de violão à fogueira, em um barzinho com um bom uísque, ou até mesmo naquelas horas solitárias de profunda reflexão. Então pegue seu Macallan (pode ser um Old Eight se a grana não der) e saboreie este som de um gigante da música:

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Tom e Vinicius, Eternos Poetas...


Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido como Tom Jobim, foi compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista, além de também poeta.
Vinicius de Moraes, conhecido como “Poetinha” (apelido dado a ele por Tom Jobim) foi jornalista, poeta, cantor, dramaturgo, diplomata e compositor. Ambos têm algo incomum: a paixão pela poesia e pela música.
Juntos foram fundadores do movimento revolucionário na música brasileira chamado de “Bossa Nova”, juntamente com João Gilberto, e essa parceria não poderia resultar em outra coisa que não fosse nos privilegiar com as mais belas e perfeitas canções.



Vinicius casou-se nove vezes, Tom duas. Os dois apreciavam um bom charuto e cigarro e não resistiam a um bom uísque.
"Dinheiro é bom para comprar uísque, charuto e pagar o aluguel" (palavras ditas por Jobim atribuindo a frase a Chico Buarque).
“O uísque é o melhor amigo do homem. É um cachorro engarrafado” (Vinicius de Moraes).

Vinicius sempre demonstrou ser um homem apaixonado, e segundo Carlos Drummond de Andrade, ele foi o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão, ou seja, da poesia em estado natural.
Ele descrevia seus sentimentos de uma forma tão forte que é possível sentir o que ele escreveu através da leitura. Amor e Morte eram os pontos fortes de sua literatura, e isso pode ser encontrado, por exemplo, no Soneto de Fidelidade:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Era também considerado conquistador, tanto que se casou inúmeras vezes, teve cinco filhos, mas sua única e fiel paixão foi a poesia.
“Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.” (Vinicius de Moraes)

Já Tom era mais tranquilo, casou-se poucas vezes, e se considerava um “amador apaixonado”.
“Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? Amar. O amor é a verdadeira sacanagem.” (Tom Jobim)

A ausência do pai, Jorge de Oliveira Jobim, durante a infância e adolescência lhe impôs um contido ressentimento, desenvolvendo no maestro uma profunda relação com a tristeza e o romantismo melódico, transferido peculiarmente para as construções harmônicas e melódicas.

“Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor...”
(A felicidade, Tom Jobim)


Aprendeu a tocar violão e é claro, piano que é sua marca registrada.

A união desses ícones musicais resultou em composições que até hoje são grandes sucessos no Brasil e no mundo, com direito até a interpretações internacionais. E para quem gosta de uma boa música, temos Garota de Ipanema, composta em homenagem a Helô Pinheiro, mas que se transformou num hino da música brasileira. Curte aí!!!





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