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Bota ponta, Telê! Hoje é dia de Jô!

    Já começo pedindo desculpas antecipadas pela minha incompetência no que diz respeito à imparcialidade desse post, nunca que eu poderia ser imparcial ao dizer sobre um herói da minha juventude, sim, depois de uma infância de Spider-Mans e Kamen Riders, eu tive e ainda tenho o Jô Soares como meu grande herói. Logo de cara parece fácil falar de uma pessoa que se tenha tanta admiração, mas a incapacidade de fazer um post digno de tal herói, me obriga descê-lo para um pedestal mais baixo e visível para todos. Já adianto que não falarei muito do Jô comediante, o foco aqui é o Jô escritor, esse é o Jô que eu tento todos os dias NÃO copiar, eis um grande desafio, pois esse lado dele que me inspira em tudo o que faço.

     José Eugênio Soares, o gordo multifuncional, ele é escritor, ator, artista plástico, humorista e ainda tem tempo para ser músico. Um homem energético que se considera preguiçoso, apresentador de um talk show de dar inveja à muito estadunidense. O homem que descobriu um dos maiores segredos da felicidade, fazer aquilo que gosta, isso ele leva ao extremo, pois faz, na medida do possível, tudo o que gosta, o que gera esse homo universalis tão espontâneo.

     Em seus romances nota-se uma obsessão, os assassinatos. Em "Assassinatos na Academia Brasileira de Letras", "O Homem que Matou Getúlio Vargas", "O Xangô de Baker Street" e "As Esganadas", Jô Soares encara a morte de forma irreverente, com essa mistura mágica de humor e mistério. Eis uma tarefa que só alguém como ele poderia realizar, escrever livros tão ricos em relatos históricos, requer uma dedicação extraordinária que só alguém apaixonado é capaz de fazer.

    Lançado em 1995, "O Homem que Matou Getúlio Vargas" é fruto de uma pesquisa pessoal de dois anos, em que leu aproximadamente 80 livros para ter uma base histórica mais consistente, nos dias de folga do Jô Soares Onze e Meia, ele escrevia das duas da tarde até à uma da manhã. Já em O Xangô de Baker Street, lançado no mesmo ano, Jô teve o auxílio de uma equipe de pesquisadores, tendo concluído tudo em meio ano.
     Essa foi apenas uma palhinha do empenho desse homem apaixonado pelo o que faz, em breve traremos posts com mais detalhes sobre o Jô escritor!

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Caipira, ou porque não Arte?

Caipira, ou porque não Arte?

Socorro!!! Hoje estou inspirada, e pra quem não gosta do “Caipirão do Bão”, aconselho a dar uma chance a essa arte musical que tem cheirinho de mato, esterco e sensação de brisa numa linguagem bem roceira. Mas antes de continuar, em homenagem aos que realmente sentem prazer em falar sobre esse assunto, vamos rever uma pérola do Caipira conhecida pela maioria dos brasileiros: a canção "Você vai gostar" de Elpídio dos Santos interpretada na belíssima voz de Sérgio Reis.



Não sei por que, mas de repente me bateu uma vontade de falar de um assunto que hoje em dia já não se fala mais: o legítimo estilo caipira, o caipirão danado do interior, ou melhor, do rancho. Estilo musical que traz saudades da infância, da casa da vovó, das noites de luar onde se podiam ver as estrelas à noite, do cheiro de querosene queimando na lamparina. Época em que se ouviam canções em radinhos de pilha, aliás, quem nunca fez isso com o pai?
Eita época boa em que se faziam lindas serenatas e a preocupação maior era em ser feliz! Em que sentar numa mesa de bar era sinônimo de expressão de alegria. Onde se criavam histórias muitas vezes surreais, mas quando cantadas em melodias “caipirescas” eram capazes de fazer qualquer um que ouvisse projetar, em sua mente, cada detalhe desde o mais absurdo podendo quase transferir para a realidade.





É claro que eu não vivi essa época, mas cresci ouvindo causos de meu pai, avós e outras pessoas mais velhas. Infelizmente essa época não voltará para dar oportunidade aos dessa geração complicada da qual eu também faço parte, o que é uma pena, pois antes sim se sabia viver a vida de maneira intensa. Havia música que realmente retratava os sentimentos. Expressava-se tristeza, alegria, romance, coragem, enfim, qualquer sentimento de uma forma inocente, pura...


Muitos já choraram a perda de alguém querido ouvindo essas músicas, ou simplesmente se emocionam apenas pela intensa emoção que transmitem. Alguns já se imaginaram numa casinha branca com capela lá no pé da serra, ou se imaginaram grandes caçadores de onças ferozes.
Inúmeras são as histórias, e a imaginação é sem limites. O caipira não é apenas um estilo musical. É também arte e fantasia. É uma porta que te leva para o mundo da imaginação....É criativo e te leva a sonhar. E é disso que precisamos hoje, de um motivo para sonhar, de um impulso para sair um pouco da realidade cansativa e cair no universo de fantasias.

 

Grandes artistas foram responsáveis por levar a alegria de viver através desse estilo musical. Tonico e Tinoco, Jacó e Jacozinho, Abel e Caim, Sérgio Reis, Elpídio dos Santos e muitos outros que abusaram da criatividade na hora de dar nome à dupla. É velho? É, mas é inocente, é engraçado, emocionante, surreal, triste e é acima de tudo: arte, porque um só estilo se diversifica e retrata, ao mesmo tempo, um pouco da história de cada um. Quem nunca se identificou?

Clique no link abaixo para conhecer a história de uma das maiores duplas caipiras da história: Tonico e Tinoco... Curte a saudade aí!!!!




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A casa da Vovó

Aproveitando a semana da criança, vamos falar hoje desse mundo mágico e cheio de fantasias que é o da criança. Todos que leem esse blog já foi criança um dia, e nessa época tínhamos o poder de enxergar além do que os olhos conseguiam ver. Às vezes um pedacinho de papel se transformava numa enorme e poderosa nave espacial, ou com uma simples folha de árvore podíamos comprar tudo que queríamos.....




 Éh!!!! Esse era o mundo da fantasia que enquanto crianças não sabíamos a falta que nos faria um dia!!!! E já que estamos falando em fantasias, quero hoje aproveitar a brechinha do dia das crianças e postar aqui um lindo poema criado não por uma escritora famosa, mas por alguém muito especial, principalmente para mim: minha filha Vitória de onze anos, que conseguiu dar vida poética a coisas que para nós adultos não têm sentido algum, e vão perceber que num quintal é possível encontrar as mais lindas e belas rimas, rimas estas que nos fazem muita falta nos dias tão corridos que temos hoje!



A casa da Vovó.

Três lindos pássaros saltando
Como se estivessem num jogo,
E um cantinho pegando fogo.
Uma casinha cheia de troncos,
E folhas de árvore e de papel de escrever.
Uma casa para construção,
E um lindo pé de algodão.
Uma pia quebrada,
E uma parede rachada.
Uma plantação de hortaliças,
E borboletas dançarinas.
Em um alpendre maravilhoso
Há um banco de praça.
Um cheirinho de bolo bem gostoso,
E o vovô cheio de graça!
Um caminhão cheio de cervejas
Que acabou de passar.
Onze caixas de marimbondos,
Um sol rochoso e um pé de castanhas
Balançando com o ventinho a soprar!!!!!


E quem de vocês não sentiu saudades da casa da vovó????


















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Alvares de Azevedo, um romântico ao extremo


Dramaturgo, poeta e Don Juan brasileiro, Manuel Antônio Alvares de Azevedo foi um dos maiores escritores do ultra-romantismo. Em seus trabalhos encontra-se material nocivo para a saúde mental de qualquer desavisado, mas nem por isso vou deixar de recomendar esse escritor, do qual suguei os mais fortes escritos já lidos em minha adolescência.
            Grande admirador da pureza feminina, da qual procurava nos ambientes mais improváveis, mas como dizia em uma de suas obras:

“A virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.”
(Alvares de Azevedo - Macário)
Essa busca por tal virgem pura de corpo e alma, rendeu contos e poemas intensos, que fazem-nos refletir sobre o apreço que temos pelas pessoas e inclusive pela própria vida, um em especial mexeu comigo de forma que nenhum verso havia feito antes:

Lembrança de Morrer
Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
... Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade... é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua pratear-me a lousa!
           
            Tantas obras de tirar o fôlego em uma vida tão curta. Aos 21 anos incompletos, ele faleceu, deixando a ideia de que já esperava o beijo da morte, como é citado em sua antologia “Lira dos Vinte Anos”:
“Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos! ... não vivi um só momento!”
(Alvares de Azevedo – Saudades)
 

Eis o gênio que me apresentou ao mundo de Byron, Goethe e tantos outros escritores fantásticos que tive o prazer de ler!

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Samba, ritmo que contagia!!!!!



SAMBA, RITMO QUE CONTAGIA!!!!!

Que tal falarmos hoje de um assunto bem Brasileiro? Algo que querendo ou não está no nosso DNA ; algo que por mais que alguns tentem evitar, é impossível conter aos seus encantos: o nosso querido e original 




O samba nasceu na Bahia, no século 19, da mistura de ritmos africanos, mas foi no Rio de Janeiro que ele criou raízes e se desenvolveu, mesmo sendo proibido. Quem fosse pego dançando ou cantando samba corria um grande risco de ir “sambaratrás das grades e isso porque ele era ligado à cultura negra, que era mal vista na época (década de 20). Só mais tarde é que ele passou a ser encarado como um símbolo nacional, principalmente no início dos anos 40.

Com o passar do tempo ele ganhou novos sotaques, novos modos de ser tocado e cantado, e isso faz dele um dos ritmos mais ricos do mundo. Contagiante, que exala vida e emoção. Música que canta a vida de seu melhor ângulo. Encanta e emociona. É cômico,trágico, ousado ou romântico.


São tantas características que ele possui, que é difícil alguém não se adaptar a ele, e são tantos compostos que é impossível ficar de fora: Samba de Breque, Samba Batido, Samba Canção, Samba Enredo, Samba de Roda, Samba Rock, entre outros, e é claro, o melhor (na minha opinião): o Samba de Raiz que é a expressão mais autentica da cultura brasileira...



...e são tantos os que encantam e já encantaram soltando a voz num hino universal da felicidade! Herança que passa de geração em geração; estilo que não escolhe cor ,raça, etnia, nacionalidade ou qualquer característica específica de alguma pessoa.





E se tem uma coisa que é unanime, apesar de seus diferentes estilos é que, não tem nada que combine melhor com ele do que uma turma de amigos num final de semana, churrasco e uma cervejinha bem gelada!



Dá uma clicada aí no link para conferir a história desse tesouro nacional que, apesar das dificuldades que passamos nos dias de hoje, é incrivelmente forte para nos levantar o astral....

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Esperanza, uma estadunidense bem brasileira

Sei que o objetivo do blog é divulgar as jóias da literatura e da música brasileira, mas hoje falaremos de uma estrangeira que tem um carinho especial pela nossa música.
Esperanza Spalding é uma contrabaixista estadunidense, nascida no estado de Oregon. Teve seu primeiro contato decisivo com a música, quando, aos 4 anos de idade, assistiu a uma apresentação do violoncelista Yo-Yo Ma, desde então se dedicou ao violino, até seus 15 anos. Já aos 15, ela descobriu o contrabaixo e um mundo novo na música que o instrumento apresentou-lhe.
Seu primeiro contato sólido com a música brasileira foi quando uma amiga brasileira, a talentosa e expressiva contrabaixista Amanda Ruzza, mostrou-lhe um CD do Wayne Shorter, “Native Dancer”, que trazia alguns músicos brasileiros como Milton nascimento e Airto Moreira, esse álbum foi a ponte que ligou Esperanza com a nossa música. No seu álbum homônimo, lançado em 2008, ela canta a música “Ponta de Areia”, música do Milton Nascimento que foi regravada para o “Native Dancer”. Confira s versão de Esperanza:

Nesse mesmo álbum, encontra-se uma linda composição de Vinicius de Moraes e Baden Powell, “Samba em Prelúdio”:

No álbum “Nove”, de Ana Carolina, há uma participação de Esperanza na faixa “Traição”:

Seu contato com a cultura brasileira foi se espandindo cada vez mais. Em 2010, Esperanza começa a trabalhar com Milton Nascimento, trabalho que rendeu a faixa “Apple Blossom”, do álbum “Chamber Music Society”. Em 2011, em sua apresentação no Rock in Rio, novamente ao lado de Milton Nascimento, Esperanza focou sua apresentação na música popular brasileira.
Em entrevista recente, promovida pelo jornal Estadão, Milton Nascimento faz perguntas para Esperanza sobre a impressão que ela teve com o público brasileiro e se ela tem a intenção de gravar com mais músicos de nossa terra, confira a entrevista no link: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,esperanza-e-a-descoberta-do-brasil-,1039470,0.htm

Esperanza Spalding é, na minha opnião, a estadunidense mais brasileira dessa geração!


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Conto: As mãos de meu filho.

Escolhi nesta postagem, falar de literatura brasileira ao invés de música, e como o nome do Blog é Clave de Livros, não encontrei assunto melhor para falar do que uma das grandes obras de Érico Veríssimo: “As mãos de meu filho”.
O conto “As mãos de meu filho”, tem como assunto principal o concerto do pianista Gilberto, filho de D. Margarida, mulher trabalhadora e que sempre lutou para que seu filho pudesse chegar aonde chegou: à frente dos holofotes e do Sr. Inocêncio, pai desnaturado que passou a vida tropeçando e caindo pelas calçadas das ruas bêbado, sem conseguir levar um só centavo ou esperança de uma vida melhor para sua família.
No camarote de um suntuoso teatro, os pais do pianista, assistem orgulhosos e emocionados com o sucesso do filho, e durante o concerto, as lembranças de uma vida triste e cheia de dificuldades se misturam às notas musicais de grandes mestres como Beethoven, Chopin e Brahms.

“Como foram longos e duros aqueles anos de luta! Inocêncio sempre no mau caminho. Gilberto crescendo. E ela pedalando, pedalando, cansando os olhos; a dor nas costas aumentando, Inocêncio arranjava empreguinhos de ordenado pequeno. Mas não tinha constância, não tomava interesse. O diabo do homem era mesmo preguiçoso. O que queria era andar na calaçaria, conversando pelos cafés, contando histórias, mentindo...


A realidade dessa família não foge da que vemos hoje. Famílias sendo desestruturadas e filhos crescendo revoltados por causa da presença do álcool entre eles. Não fosse D. Margarida, sempre paciente e zelosa por sua família, talvez seu marido nunca tivesse abandonado o vício, e o sonho de Gilberto em se tornar um grande pianista não se teria concretizado.
Mas enfim, como quase todas as histórias, essa também tem um final feliz, e vale à pena conhecer esse lindo conto onde infelizmente muitas famílias se identificam também assistindo ao filme.









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Orfeu da Conceição, o som da lira e da amizade

“Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país, melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca.”   
 (Vinicius de Moraes)

            Do grande mito grego, surgiu a idéia de uma peça, mas na mente de um gênio não surgiria uma simples releitura de um conto, mas a base para uma obra estupenda, onde a realidade de seu povo foi mostrada para o mundo. Orfeu da conceição, peça teatral premiada, foi o grande elo de uma amizade, da qual nasceram frutos dignos aos deuses do olimpo.

             “Foi por volta de 1942 que eu, uma noite, depois de reler o mito numa velha mitologia grega, senti subitamente nele a estrutura de uma tragédia negra carioca. A lenda do artista que conseguiu, graças ao fascínio de sua música, descer aos infernos para buscar Eurídice, sua bem-amada morta e que, ao perdê-la em definitivo e com ela o gosto de criar e de viver, desencadeou em torno de si a desarmonia, o desespero de que seria ele a primeira vítima, - essa lenda poderia perfeitamente passar-se num ambiente como o de uma favela carioca, sublimados, é claro, os seus elementos naturais de modo a atingir a elevação do mito.”
(Fragmento, texto de Vinicius de Moraes)


Peça pronta, só faltava as mãos de um músico para complentá-la. Então foi no restaurante carioca Vilarino, que Vinicius, poeta já renomado, foi apresentado à um músico ainda oculto na noite, Tom Jobim. Por viver apertado, com os trocados que conseguia na noite, o interesse financeiro de Tom era grande, mesmo deixando isso explícito ao Vinicius, os dois começaram à trabalhar na música.

            "No início, havia uma certa timidez. As primeiras músicas ficaram umas porcarias. Fizemos três sambas horríveis, num desajuste total. Mas Vinícius, pacientemente, queria que fossemos trabalhando até sair uma coisa direita”.
(Songbook de Tom Jobim)

             De fato, depois de tanto trabalho, surgiu uma maçã de ouro, uma música que tornou-se eterna, “Se todos fossem iguais a você”:



            Eis o ponto de partida dessa união, que está guardada pelas espérides, em meio a  todas as maçãs douradas que Tom e Vinicius compartilharam com a humanidade.

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Soneto do Amor Total



Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Saindo um pouco das Claves e mergulhando nos Livros, vamos falar um pouco hoje sobre o lado LITERÁRIO de Vinícius de Moraes, que não recebeu por acaso de Tom Jobim o apelido de POETINHA.
Além de compor canções que ainda fazem grandes sucessos no Brasil e no mundo, Vinícius foi autor de magníficas poesias, prosas e sonetos que marcaram a literatura brasileira. Eles inspiraram canções, muitos corações apaixonados, e deram asas à imaginação de frágeis sonhadoras que esperavam o amor do homem perfeito.

“Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.”
(Prosa Para viver um grande amor)
Mas o poetinha não usou seu dom apenas para descrever o amor em seu estado enamorado, ele ousou criar com palavras, um modelo de perfeição feminina que para ele era indispensável.
Em Receita de Mulher, Vinicius esculpe com poesia a mulher perfeita, e cá entre nós, o quase impossível em uma só mulher....



E não para por aí. Ele fez jus de sua fama de “mulherengo” exaltando a mulher como símbolo de adoração em outras de suas composições como: Poema do Olhos da Amada, Soneto da Mulher ao Sol,  A Mulher que passa, e outros .
E pra fechar com chave de ouro, um pouquinho de Vinicius de Moraes nas vozes de Caetano e Maria Betânia...






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Corcovado, Um Gigante de Belezas Mil

Um cantinho e um violão
Este amor, uma canção
Pra fazer feliz a quem se ama
Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor que lindo
Quero a vida sempre assim com você perto de mim
Até o apagar da velha chama
E eu que era triste
Descrente deste mundo
Ao encontrar você eu conheci
O que é felicidade meu amor
O que é felicidade, o que é felicidade
(Corcovado - Tom Jobim)

      Corcovado, um gigante de gnaisses, aos olhos de um geólogo. Aos olhos de um poeta, é um gigante de belezas mil, um mar de inspirações, mar este que o Sir Antônio Carlos velejou por toda sua extensão. Hoje não irei falar do grande pedestal de Cristo, mas da canção, tão tenra, que tomou parte do repertório de saudosos intérpretes, como Frank Sinatra e Miles Davis..
      Nos meados dos anos 60, o mundo recebeu um presente tão belo quanto o monumento que o nomeava, Tom Jobim lançara a canção "Corcovado". No começo desta década, Tom admirava a vista  que tinha de seu apartamento, desta vista surgiu inspiração para uma obra prima, que até hoje é vista como um grande patrimônio, não só carioca, mas também de todos nós brasileiros, assim como o Cristo Redentor.
     Eis uma canção para se saborear bons momentos, seja numa roda de violão à fogueira, em um barzinho com um bom uísque, ou até mesmo naquelas horas solitárias de profunda reflexão. Então pegue seu Macallan (pode ser um Old Eight se a grana não der) e saboreie este som de um gigante da música:

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Tom e Vinicius, Eternos Poetas...


Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido como Tom Jobim, foi compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista, além de também poeta.
Vinicius de Moraes, conhecido como “Poetinha” (apelido dado a ele por Tom Jobim) foi jornalista, poeta, cantor, dramaturgo, diplomata e compositor. Ambos têm algo incomum: a paixão pela poesia e pela música.
Juntos foram fundadores do movimento revolucionário na música brasileira chamado de “Bossa Nova”, juntamente com João Gilberto, e essa parceria não poderia resultar em outra coisa que não fosse nos privilegiar com as mais belas e perfeitas canções.



Vinicius casou-se nove vezes, Tom duas. Os dois apreciavam um bom charuto e cigarro e não resistiam a um bom uísque.
"Dinheiro é bom para comprar uísque, charuto e pagar o aluguel" (palavras ditas por Jobim atribuindo a frase a Chico Buarque).
“O uísque é o melhor amigo do homem. É um cachorro engarrafado” (Vinicius de Moraes).

Vinicius sempre demonstrou ser um homem apaixonado, e segundo Carlos Drummond de Andrade, ele foi o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão, ou seja, da poesia em estado natural.
Ele descrevia seus sentimentos de uma forma tão forte que é possível sentir o que ele escreveu através da leitura. Amor e Morte eram os pontos fortes de sua literatura, e isso pode ser encontrado, por exemplo, no Soneto de Fidelidade:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”

Era também considerado conquistador, tanto que se casou inúmeras vezes, teve cinco filhos, mas sua única e fiel paixão foi a poesia.
“Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.” (Vinicius de Moraes)

Já Tom era mais tranquilo, casou-se poucas vezes, e se considerava um “amador apaixonado”.
“Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? Amar. O amor é a verdadeira sacanagem.” (Tom Jobim)

A ausência do pai, Jorge de Oliveira Jobim, durante a infância e adolescência lhe impôs um contido ressentimento, desenvolvendo no maestro uma profunda relação com a tristeza e o romantismo melódico, transferido peculiarmente para as construções harmônicas e melódicas.

“Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor...”
(A felicidade, Tom Jobim)


Aprendeu a tocar violão e é claro, piano que é sua marca registrada.

A união desses ícones musicais resultou em composições que até hoje são grandes sucessos no Brasil e no mundo, com direito até a interpretações internacionais. E para quem gosta de uma boa música, temos Garota de Ipanema, composta em homenagem a Helô Pinheiro, mas que se transformou num hino da música brasileira. Curte aí!!!





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